quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

A profecia no Novo Testamento


KNIGHT, George W. A profecia no Novo Testamento. São Paulo: Editora Os puritano, 1998, 33 p.


            Nos últimos cem anos temos assistido, de maneira mais acentuada, as tensões entre continuismo e cessacionismo. Um dos pontos básicos desse conflito repousa na seguinte questão: O dom de profecia esteve circunscrito ao período apostólico ou ainda continua em vigor em nossos dias?

         Opondo-se a católicos, carismáticos, pentecostais, renovados e neopentecostais, o Dr. George Knight III, professor adjunto de Novo Testamento no Seminário Presbiteriano Greenville, advoga que a profecia é um dom revelacional dos dias da igreja primitiva e que cessou depois que a Escritura do Novo Testamento foi escrita.

            Para defender esta ideia, o Dr. George observa que “A primeira referência à profecia no Novo Testamento acha-se registrada em Atos 2:14ss, especificamente nos versículos 17 e 18” (p. 7,8). Nesse texto, o apóstolo Pedro diz que o que fora profetizado por Joel (2.28-32) acabara de se cumprir na vida dos discípulos de Jesus. A partir dessa declaração de Pedro, o autor destaca duas importantes verdades: Primeira, a profecia é uma obra do Espírito Santo sobre a vida de alguém. Segunda, o profeta Joel “prediz e descreve a profecia do Novo Testamento nos termos da profecia do Antigo Testamento” (p. 8).

            Como a profecia no Novo Testamento é descrita da mesma forma que a profecia no Antigo Testamento, o Dr. George busca, na sequência de seu texto, uma definição bíblica para a atividade profética. Apoiando-se em Dt 18.18, que diz: “Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar”, ele encontra a definição por excelência de profecia: profeta é aquele capacitado para falar as palavras que o próprio Deus lhes dá, ou seja, o profeta é aquele que traz a revelação de Deus.

            George Knight procura confirmar essa definição por meio de textos neotestamentários que descrevem a atividade profética - (At 11:27-28; At 21:10ss; At 13:1-3; I Co 14:29-32; Ef 3:5; 2 Pe 1:21; 1Tm 1:18 e 4:14) – e na sequência aborda, mais detidamente, os textos de I Co 11 ao 14. Da análise desses textos paulinos chega à mesma conclusão: a atividade profética envolve a recepção e a comunicação da revelação divina.

            Apoiando-se em 1 Pe 1.21, onde encontra-se registrado que “[...] nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”, o Dr. George defende a inviolabilidade de sua definição, isto é, a atividade profética é revelacional por natureza.

            Dada a definição de profecia, o Dr. George, no curso de sua obra, passa a considerar se este dom revelacional ainda continua em atividade na atualidade. Para negar a continuidade do dom de profecia em nossos dias, ele se apoia basicamente nos textos de Efésios 2.20, 3.5 e 4.11, embora reconheça que o texto mais importante para o entendimento da cessação da atividade profética na igreja pós-apostólica é Efésios 2.20. A partir desse texto, a autor conclui que as profecias não mais existem porque faziam parte do trabalho de fundação da igreja e que por isso “todas as exortações do Novo Testamento relacionadas à profecia não são mais prescritivas para nós os que vivemos após o período fundacional dos apóstolos e profetas, o qual já cessou” (p. 30).  

            O livro de George Knight, “A profecia no Novo Testamento”, é uma ótima obra para quem deseja entrar em contato com o pensamento cessacionista de forma rápida e objetiva. O problema com o pensamento do autor na defesa de seu cessacionismo, talvez pela brevidade de suas palavras, esta na limitação da função profética a fundação da igreja, se esquecendo, por exemplo, que o Paulo, na mesma carta aos Efésios, também associa a atividade profética a edificação do corpo de Cristo.

            Esse ramo da atividade profética era algo de vital importância para a edificação da igreja primitiva, como podemos verificar em vários textos citados pelo próprio George Knight:  
  •  As profecias proferidas por Ágabo em At 11.27-30 e At 21.10 não estavam revelando o mistério de Cristo nem princípios apostólicos ou proféticos fundamentais para a vida do povo de Deus, mas apenas prevendo eventos futuros da vida da Igreja;  
  • Em At 13.1-3, igualmente, não temos uma revelação profética do mistério de Cristo, mas a atividade profética dirigindo a igreja na escolha de seus missionários.
  • Em 1Co 14.3,4, Paulo destaca claramente o propósito edficacional da profecia: edifica, consola e exorta.
  • Em 1 Co 14.24,25, o apostolo Paulo também observa que a profecia tinha como objetivo revelar os segredos do coração dos incrédulos.
  • Em I Co 14:29-32 a profecia também não tinha uma caráter fundacional, mas edificacional, visto que destinava-se a consolação da igreja;
  • Em 1Tm 1:18; 4:14, o apóstolo Paulo, ao exortar o pastor Timóteo com o claro objetivo de que este desenvolvesse bem o seu ministério, lembra que o mesmo fora objeto de profecias. A profecia neste caso também não parece ter um caráter fundacional.  

            A conclusão a que chegamos é que o Dr. George Knight ao limitar a atividade profética a questão fundacional da igreja, parece não reconhecer que a igreja necessita da atividade profética como um meio para a sua edificação na atualidade. Reconheço que o Dr. George Knight poderia argumentar contra a minha conclusão da seguinte forma: não precisamos de profecias porque já temos a Bíblia, a revelação de Deus por excelência. O problema com esta declaração é que a Bíblia só veio a se tornar acessível à grande massa do povo de Deus a partir do século XVIII. Logo, a história do povo de Deus, pelo menos a sua maior parte, é uma história divorciada da revelação divina.

            Por outro lado, é difícil entender como a atividade profética da nova aliança seria menos intensa do que a atividade profética da antiga, já que os profetas da antiga aliança profetizaram que nos “últimos dias”[*] Deus derramaria do seu Espírito sobre toda a carne e como consequência desse derramar todos profetizariam.

            A despeito dessas observações, como já observado anteriormente, a obra de George Knight é muito útil para uma compreensão rápida e clara do posicionamento do posicionamento cessacionista a respeito das profecias.    


Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco.
[*] Essa expressão encontra-se em Atos 2.17 e  é compreendida pelos teólogos como uma referência clara ao período compreendido entre a primeira e a segunda vinda de Cristo.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Fora da igreja há salvação?



LIMA, Ezequias Bezerra. Fora da igreja há salvação? Recife: Pax Publicações, 2014, 124 p.

O movimento evangélico brasileiro ao longo dos anos vem sofrendo profundas e significativas modificações. Passamos do tradicionalismo para o pentecostalismo, deste para o neopentecostalismo e, mais recentemente, estamos vendo uma boa parcela de crentes abandonarem à igreja institucional na direção de um Cristianismo sem igreja.

O Dr. Ezequias Bezerra, um pastor e teólogo pernambucano, líder da Igreja Missionária Canaã e presidente do Grupo Maranata de Comunicação, na obra “Fora da igreja há salvação?”, se propõe a apresentar uma interessante reflexão sobre essa nova atmosfera vivida pela igreja brasileira.

A obra está dividida em nove capítulos e, segundo o autor, é fruto de uma mensagem pregada na igreja que pastoreia e tem como objetivo ajudar o leitor em sua caminhada de fé até o céu.

No primeiro capítulo, o autor procura apresentar uma definição de igreja. Fugindo da concepção popular de que, por exemplo, “uma igreja é um lugar onde tem música, orações e um líder religioso falando acerca de Deus utilizando a Bíblia ou suas tradições” (p. 17), o Dr. Ezequias procura conceituar a igreja utilizando imagens bíblicas: “A igreja é o corpo de Cristo, é a sua noiva, é o seu povo, é a sua família, é a sua casa”, (p. 19). É uma comunidade “formada por pessoas salvas em Cristo Jesus” (p.21) e que se reuni em um determinado lugar para cultuar ao Senhor.

Nesse sentido, a igreja pode ser compreendida como uma comunidade visível-invisível, pois, como destaca o autor, não existe uma dimensão sem a outra. Contudo, é a dimensão invisível que determina a visibilidade da igreja.

Dando sequência ao curso de sua argumentação, o Dr. Ezequias Bezerra, no segundo capítulo, desenvolve o seguinte tema: a origem da igreja. Como deixa claro, a igreja tem origem em Cristo Jesus, a pedra de esquina, o fundamento para os apóstolos e profetas. Essa igreja fundada por Cristo, contudo, não tem uma dimensão mística apenas. Ou seja, a igreja não é apenas invisível aos olhos do mundo, mas, como se depreende das Escrituras Sagradas, é também visível.

Desse modo, segundo o autor, a igreja precisa de uma estrutura formal para o desenvolvimento de sua missão; de um local para culto, de líderes para orientar e disciplinar a comunidade e da companhia fraterna dos discípulos de Cristo para que mantenha uma vida saudável.

No terceiro capítulo, Ezequias Bezerra apresenta, com mais detalhes, os símbolos que a Bíblia emprega para representar a igreja. São eles: “Edifício, morada de Deus, assembléia dos santos, reunião de salvos, comunidade de fé, família de Deus, corpo de Cristo, cidade de Deus, lavoura, candelabro, rebanho, comunidade dos santos, Cristãos = réplicas de Cristo, Templo de Deus, noiva do cordeiro e outros mais” (p. 44).

A intenção do autor nessa parte de seu trabalho é demonstrar o caráter comunitário e visível da igreja, bem como a relação que esses símbolos tem com o próprio Cristo.

No próximo capítulo, o Dr Ezequias observa que a igreja é propriedade de Deus. Ou seja, a igreja é o povo que Deus elegeu para si antes da fundação do mundo. Todavia, como destaca o autor, no mundo a igreja manifesta a glória do próprio Deus. Desse modo, o Dr. Ezequias compreende que a igreja tem uma dimensão visível no mundo – o que, infelizmente, “querem” negar os desigrejados -  e que lutar contra essa estrutura é declarar guerra contra o dono da igreja.

O Dr. Ezequias Bezerra, no quinto capítulo, procura responder as seguintes questões: Como se entra na igreja? Como se torna povo de Deus? Embora pareca fazer uma pequena confusão entre regeneração e santificação, o autor, sem rodeios, aponta que a porta de entrada para a igreja é a conversão, ou seja, “uma mudança de mente, uma renovação do pensar, do crer, do agir, do ser” (p. 69), evidenciada por uma série de frutos (p. 71).

No sexto capítulo, a grande questão colocada pelo autor é a seguinte: Precisamos da igreja? Nesse ponto, o Dr. Ezequias Bezerra destaca a importância da igreja institucional, apesar de seus problemas, para a vida cristã, pois, como observa, é a partir da igreja que Deus pastoreia o seu rebanho, desenvolve a sua missão e revela a sua vontade.

Nesse capítulo, Ezequias Bezerra ainda nos leva a entender que as críticas dirigidas à igreja de Crista, não poucas às vezes, carecem de fundamento mais sólido. Isso porque, aquilo que é o objeto da crítica dos desigrejados, de modo geral, não merece o nome de igreja.

Recorrendo a vários textos bíblicos, no sétimo capítulo, o Dr. Ezequias procura demonstrar que a verdadeira igreja é uma comunidade de discípulos que demonstram sua fidelidade a Jesus à medida que amam uns aos outros. De modo prático, esse amor é materialidade por meio do serviço mútuo.

No penúltimo capítulo, Ezequias Bezerra observa que, diferente do que muitos pensam, a igreja não é um lugar de pessoas perfeitas, mas um lugar de pessoas em transformação. Aqueles que desprezam essa característica fundamental da igreja, segundo o autor, acabam se frustrando e, finalmente, abandonado a igreja. O remédio contra essa postura tão comum em nossos dias, na visão de Ezequias Bezerra, está na correta expectativa sobre a igreja, isto é, no entendimento de que a igreja é uma comunidade de pessoas imperfeitas que caminham para a maturidade e que fora da igreja, a semelhança de uma brasa fora do braseiro, a vida cristã tende, invariavelmente, a perder a sua vitalidade.

No último capítulo, a partir da ideia de que a relação entre Deus e o seu povo é uma relação de amor, da imagem bíblica de que a igreja é a noiva de Cristo e que vivi com este uma relação monossomática, o Dr. Ezequias Bezerra conclui a sua obra declarando que fora de Jesus não há salvação, mas, “como Jesus e a igreja são um” (p. 123), logo, fora da igreja também não há salvação.

O livro ainda conta com o apêndice “Não fale sem antes conhecer” e “Deus é organizado”, uma introdução a obra “Não atire pedras... Conhecendo a Igreja por dentro”, que dá sequência aos estudos eclesiológicos do Dr. Ezequias Bezerra.

“Fora da igreja há salvação?” é um material extremamente importante para todo aquele que deseja conhecer mais, a partir de uma cosmovisão bíblica, sobre a relação entre a eclesiologia e a soteriologia. É bem verdade que a obra carece de um melhor embasamento histórico sobre essa relação, principalmente, quanto à origem, natureza e posicionamentos do movimento desigrejado. É preciso, todavia, observar que isso não esvazia o valor da obra, apenas a tornaria mais rica.

Do ponto de vista estrutural, agora sim, a obra apresenta muitos problemas. As orações deveriam ser melhor coordenadas e subordinadas; a ortografia deveria ter passado por um processo de revisão e a coesão de ideias deveria ter sido mais bem trabalhada. A despeito desses problemas, como destacado anteriormente, a obra tem a sua importância e destina-se a todos que desejam compreender um pouco mais a relação entre a igreja e a salvação em Cristo Jesus.        


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Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

INTRODUÇÃO AO CREDO DOS APÓSTOLOS

O credo dos apóstolos é um patrimônio do cristianismo histórico. Infelizmente, muitos cristãos não tem consciência dessa realidade. Pensando em dirimir esse problema, apresentamos o texto abaixo de Humberto Casanova e Jeff Stam, o qual faz uma ótima introdução ao assunto.
 

O uso do Credo Apostólico
É essencial que os crentes entendam a necessidade de confessar a sua fé (Mt 10:32; Rm 10:9). Confessamos a nossa fé no batismo, na Ceia do Senhor, ao testificar aos incrédulos, ao dar bom testemunho na vida pública e privada, e ao recitar o Credo no culto de adoração. Toda confissão pública da fé deve ser feita com sinceridade, e deve vir acompanhada de uma vida de compromisso com os valores do reino de Deus.
Até aqui todos estamos de acordo, mas ocorre que na América Latina algumas igrejas evangélicas não dão muito valor ao Credo Apostólico. Não se interessam em estuda-lo, nem em confessar a sua fé através dele. Esta atitude surge de três erros. Primeiro, as pessoas se enganam ao identificar o Credo com a Igreja Católica Romana, crendo que é um documento inventado por ela. Segundo, como a Igreja Católica Romana tem a prática de conferir autoridade divina a muitos de suas tradições, então, se teme que ela conceda tanta importância ao Credo dos apóstolos, que se lhe estime na mesma altura que a Bíblia. Terceiro, uma boa parte da igreja evangélica carece de consciência histórica. Se existe algum interesse pelo passado, este se concentra no período da Igreja primitiva, a qual se pretende chegar passando por toda a história que media entre nós e a Igreja do livro de Atos.
Esta falta de interesse pode ser superado se considerarmos que ao usar o Credo, o fazemos junto com a Igreja “universal” ao longo de toda a sua história. A Igreja vem usando, quase desde o seu começo, muito antes que existisse o romanismo que teve a sua origem com o papado. Mas, este estudo provará que o Credo não é mais do que um resumo do que a Bíblia ensina. Ainda que não seja errado que uma denominação conceda a um credo caráter de autoridade, com todos os demais cristãos sabemos que somente a Bíblia possui autoridade final e divina. O Credo está subordinado a Palavra de Deus. Então, é importante que os crentes percebam o quanto o Credo provê um maravilhoso recurso para confessar os pontos principais de sua fé.
 
Os nomes do Credo
Por ser a confissão de fé mais popular do Cristianismo, tem-se chamado simplesmente “o Credo”. A palavra Credo é realmente o verbo com o qual começa o Credo Apostólico no latim, o qual declara: Credo in Deum Patrem . No português a mesma oração se repete: Creio em Deus Pai. Assim que o termo Credo significa apenas Creio , ou seja, “eu creio”, eu confesso a minha fé de forma pública (cf. 2 Co 4:13). Daí, um credo que não é outra coisa que uma forma de se confessar as nossas crenças básicas (Mt 10:32; Rm 10:8-10).
É chamado de “Símbolo Apostólico”. Este nome foi dado quando as heresias começaram a minar a Igreja. A palavra Símbolo vem do grego, e significa: “marca distintiva, santo e sinal”. O Símbolo Apostólico se converte numa marca da doutrina apostólica e, portanto, a marca do cristão e da Igreja verdadeira. Rufino (falecido em 410 d.C.) disse que o Credo foi dado como uma marca contra os falsos apóstolos, e acrescenta: “assim, os apóstolos prescreveram esta fórmula como sinal e penhor pelo qual reconhecer quem realmente prega verdadeiramente a Cristo, segundo a regra apostólica.”
Também recebeu o nome de “os doze artigos de fé”. A divisão em 12 artigos obedece à lenda de que cada um dos 12 apóstolos escreveu um artigo. Todavia, é mais apropriado esquecer deste título e dividir o Credo em três partes, segundo a sua ordem trinitária.
Além do mais, lhe é concedido o qualificativo de “Apostólico”. Foi Rufino (cerca de 307-309 d.C.) o primeiro a transmitir por escrito a lenda de que, no dia anterior à partida para pregar a todas as nações, os apóstolos colocaram-se em comum acordo quanto à norma de sua pregação. E foi assim que inspirados pelo Espírito compuseram o Credo. Mas adiante Ambrósio (bispo de Milão, 340-397 d.C.) afirmou que o número de 12 artigos obedece ao número dos apóstolos. Finalmente, no século VI um sermão de Pseudo-Agostinho termina afirmando que a cada apóstolo correspondeu escrever um artigo. Esta lenda deve ser rejeitada. O Credo não é apostólico porque foi escrito pelos apóstolos, mas por ser a sua doutrina.
 
Qual a origem do Credo Apostólico?
As regras de fé ou confissões não são uma novidade inventada pela Igreja Católica Romana, ou no período moderno. Os judeus usavam Deuteronômio 6:4-9 como a sua confissão de fé, e a influência deste credo (que eles chamavam o shema ), reflete claramente no Novo Testamento (cf. Rm 3:30; 1 Co 8:4-6; Gl 3:20; Ef 4:6; 1 Tm 2:5; 3:16; 2 Tm 2:8; 1 Pe 1:21; 3:18,22). O Novo Testamento também nos entrega uma lista de pessoas que confessaram a sua fé: João Batista (Jo 1:29, 34), Natanael (Jo 1:49), os samaritanos (Jo 4:42), os discípulos (Jo 6:14,69; cf. Mt 14:33), Marta (Jo 11:27), Tomé (Jo 20:28). Todavia, a confissão mais conhecida foi a que Pedro formulou quando declarou que Jesus era “ o Cristo, o Filho do Deus vivo ” (Mt 16:16).
Por dois motivos se fez necessário o surgimento do Credo. Primeiro, a expansão missionária da Igreja, fez obrigatório o surgimento de uma declaração de fé básica para instruir aos candidatos ao batismo (Mt 28:19). Segundo, a heresia obrigou a Igreja de definir claramente a sua fé. A expansão da fé cristã colocou a Igreja em contato com muitas culturas e filosofias pagãs que ameaçavam introduzir-se no meio do povo de Deus. Por isto, desde o principio percebeu-se a importância de preservar e confessar o ensinamento dos apóstolos, o que a igreja antiga fez por meio de confissões e credos. O perigo é denunciado claramente em Hb 4:14; 10:23; 1 Jo 2:22-23; 4:1-6,15; 5:1,5 onde se reafirma e exige confessar a fé, ante o confronto com a heresia e/ou a perseguição.
Não sabemos quem ou que pessoas escreveram o Credo Apostólico, mas não há dúvida de que a sua origem remonta a tempos antiqüíssimos. Por exemplo, tão antigo como o ano 107 d.C., Inácio (bispo de Antioquia) expunha a doutrina verdadeira contra a heresia docética (veja mais a frente sobre a forma trinitária do Credo). E para expor a regra de fé da Igreja usou as seguintes palavras:

De maneira que, sejam surdos quando alguém vos fale sem Jesus Cristo,
o qual foi da linhagem de Davi,
de Maria,
quem verdadeiramente nasceu,
comeu como também bebeu,
foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos,
foi verdadeiramente crucificado e morreu tendo por testemunhas os céus, a terra e o que há sob a terra;
quem também verdadeiramente ressuscitou dos mortos, quando o seu Pai o levantou.
Seu Pai, a sua semelhança, a nós os que nele cremos, nos ressuscitará da mesma forma em Cristo Jesus, sem o qual não temos vida verdadeira.”
(Carta aos Tralianos, ix.1-2)

Justino (cerca de 100-165 d.C.) outro mártir antigo, disse em sua Apologia (I.61.10 ss ) que entre os cristãos no batismo se pronuncia “...em nome do Pai do universo e Deus soberano... em nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, e em nome do Espírito Santo.” Também Irineu (bispo de Lyon, cerca de 175-195 d.C.) disse em sua obra Adversus haereses (I.x.1-2) que:

“A Igreja... recebeu dos apóstolos e seus discípulos
a fé em um Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra...
e em um Espírito Santo, o qual através dos profetas proclamou...
e no nascimento virginal,
a paixão,
e a ressurreição de entre os mortos,
e a ascensão em carne ao céu do amado Cristo Jesus, nosso Senhor,
e seu retorno do céu na glória do Pai, para recapitular toda as coisas em um
e ressuscitar toda a carne de toda a raça humana.”

Estas são amostras de que a linguagem do Credo estava na boca da Igreja desde os tempos antigos. Homens como Irineu (cerca 175-195 d.C.), Tertuliano (cerca 160-215 d.C.) conheceram o Credo, afirmando que procedia do tempo apostólico. Isto é confirmado pelas versões do Credo que podem ser vistos nos escritos de Inácio (morto cerca de 98-115 d.C.), Justino (cerca 100-165 d.C.), Hipólito (cerca 215 d.C.), Cipriano de Cartago (250 d.C.), Novatiano de Roma (250 d.C.), Orígenes (185-254 d.C.) e Agostinho (400 d.C.). O Credo de Nicéia (325 d.C.) nada mais é do que uma elaboração mais detalhada do Credo Apostólico.
O conteúdo do Credo é inspirado diretamente na doutrina apostólica. Uma comparação entre os textos da Escritura demonstrará que a dependência chega a escolher até mesmo as palavras. Que a linguagem do Credo estava na boca da Igreja primitiva é possível perceber claramente pelos textos de Rm 1:3-4; 8:34; 1 Co 15:1-4. De fato, a confissão da Igreja era simplesmente a pregação da Igreja (cf. At 2:22-36; 3:15; 4:10; 5:30-31; 9:20; 10:36,39-40; 17:2-3,31; 18:5,28; 26:23). Por isto, tem suficiente direito de ser chamado Apostólico. Calvino não se preocupava em saber quem era o seu autor. Para ele o importante era que: “o mais importante que devemos saber é que nele se encontra resumida e de modo claro toda a história de nossa fé e que nada contêm nele que não se possa confirmar com sólidos e firmes testemunhos da Escritura” (Institutas, II.xvi.18).
 
O texto do Credo Apostólico
As cópias mais antigas que possuímos são de Rufino (em latim 390 d.C.), e a de Marcelo (em grego, 341 d.C.). Estas duas versões são mais breves que o Credo que conhecemos hoje. Falemos primeiro do texto de Marcelo, que foi o bispo de Ancira (capital da Galácia). Aproximadamente nos anos 337-341 d.C., Marcelo escreveu uma carta ao bispo Júlio I, com o fim de provar-lhe a sua ortodoxia. É com esta finalidade que inclui nela o que é a versão mais antiga do Credo Apostólico. Toda a carta está em grego, sendo que nesse tempo era a língua oficial da igreja. O Credo de Marcelo é claramente trinitário. Todavia, a parte cristológica é muito mais ampla que a referente ao Pai e ao Espírito. A estes três artigos trinitários básicos, Marcelo lhes acrescenta outros. O texto mais breve de Marcelo diz assim:

Creio em Deus todo-poderoso
E em Cristo Jesus, seu único Filho, nosso Senhor,
Concebido pelo Espírito Santo e Maria virgem,
Crucificado sob Pôncio Pilatos, e sepultado,
E ao terceiro dia ressuscitou dos mortos,
Subiu ao céu e está sentado a destra do Pai,
De onde virá para julgar aos vivos e mortos;
E no Espírito Santo,
Una Igreja santa,
O perdão dos pecados,
A ressurreição do corpo,
A vida eterna.”
 
No presente estudo usaremos a versão que é conhecida hoje, e é aceita por toda a Igreja cristã em todo o mundo, e que chamaremos de “Texto Recebido” (650 d.C.). Nas lições usaremos referência a outras versões mais antigas, como as de Marcelo e Rufino. Em sua divisão tradicional de 12 artigos, o Texto Recebido declara:

1. Creio em Deus Pai Todo-poderoso, o Criador dos Céus e da terra.
2. E em Jesus Cristo, o seu único Filho, o nosso Senhor;
3. que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
4. padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
5. desceu aos inferno, e ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos;
6. subiu ao céu e está assentado a direita de Deus Pai Todo-poderoso;
7. dali virá para julgar os vivos e os mortos.
8. Creio no Espírito Santo;
9. na santa Igreja católica, a comunhão dos santos;
10. o perdão dos pecados;
11. a ressurreição do corpo
12. e a vida eterna. Amém.”

A forma Trinitária do Credo
Foi o Concílio de Nicéia (325 d.C.) que formulou uma posição conclusiva do dogma da Trindade. E ainda que o Credo Apostólico não entra na discussão de forma detalhada quanto a cada pessoa da Trindade, confessa a fé em um Deus Trino. O Credo está claramente dividido em três partes: O Pai e a nossa criação, o Filho e a nossa redenção, o Espírito Santo e a nossa santificação. Assim, tem se dividido o seu conteúdo em 12 artigos. Deve ser notado que a parte referida ao Filho é a mais detalhada. A metade de seus 12 artigos está dedicada ao Filho e sua obra da redenção. Tal é a importância de Jesus na teologia cristã como o centro de nossa salvação. A primeira vista, pareceria que a seção que fala do Espírito Santo foi a menos informativa, mas a verdade é que a Igreja é vista em íntima relação com a obra do Espírito.
Desde o tempo apostólico, a Igreja teve que lidar com falsas doutrinas, percebendo que era urgente produzir uma declaração de fé que reprimisse o desenvolvimento das falsas doutrinas, especialmente no que concerne a Santíssima Trindade. Por exemplo, houve um movimento chamado arianismo (cerca 318-381 d.C.), que afirmou que o Filho não era Deus, mas que havia sido criado pelo Pai. Outra seita também pregava que o Filho não era Deus, mas que era uma espécie de emanação procedente da divindade. Assim, criam que todo o mal se encontrava no mundo material, enquanto que tudo o que era bom e belo estava no mundo espiritual. Seguindo esta linha de pensamento, concluíram que o Filho de Deus não poderia fazer-se homem, porque isto lhe exigiria assumir um corpo material mal. Isto os levou a dizer que o Filho teve um corpo que somente parecia ser um corpo físico, mas que na realidade não era (docetismo), e disseram que o Filho possuiu um homem comum chamado Jesus em seu batismo e depois o abandonou antes de sua crucificação. João teve que enfrentar estas idéias (1 Jo 4:1-6,15). Foi por isto que o Credo teve que formular a sua doutrina com base na estrutura trinitária.
Extraído do livro de Humberto Casanova e Jeff Stam, El Credo Apostólico (Grand Rapids, Libros Desafio, 1998), pp. 14-22.

Fonte: www.monergismo.com/textos/credos/introducao_credo_apostolico.htm

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Os cristãos podem comer alimento com sangue e carne sufocada?

Recentemente nos deparamos em nossa congregação com o seguinte questionamento: O crente pode comer sangue? Procurando dar uma resposta consistente e biblicamente fundamentada a esse tipo de questão, apresentamos, logo abaixo, um pequeno artigo do Filipe Luiz C. Machado:

Muitos crentes sinceros se deparam com dificuldades durante a leitura bíblica. Todavia, como dizia o Dr. Martyn Lloyd Jones, "dúvidas não são incompatíveis com a fé". Deveras vezes, todos nós, nos deparamos com versículos e situações da vida onde não encontramos alguma solução imediata para a dúvida.

Dentre todas as incertezas, está aquela que diz respeito a licitude ou não de se comer alimentos com sangue e carne sufocada. Alguns são os versículos que suscitam tal ponto de interrogação:
- "Toda a pessoa que comer algum sangue, aquela pessoa será extirpada do seu povo" (Lv 7.27);
- "Portanto tenho dito aos filhos de Israel: Nenhum dentre vós comerá sangue, nem o estrangeiro, que peregrine entre vós, comerá sangue" (Lv 17.12);
- "Tão-somente o sangue não comereis; sobre a terra o derramareis como água" (Dt 12.16);
- "Somente esforça-te para que não comas o sangue; pois o sangue é vida; pelo que não comerás a vida com a carne" (Dt 12.23).

Antes de entendermos tal questão, é preciso fazer uma ressalva que, confesso, me deixa intrigado. Permita-me, o leitor, um brevíssimo desabafo.

Comumente os evangélicos cometem o grave pecado de afirmar que a Lei de Deus, isto é, as leis civis do povo de Israel do Antigo Testamento, não são mais válidas para nós - quando, no entanto, Cristo foi cristalino em dizer: "Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim ab-rogar, mas cumprir" (Mt 5.17). Ele mesmo disse que era a Lei e os verdadeiros profetas eram Sua boca: "E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos" (Lc 24.44). Porém, embora tais pessoas digam que a Lei não está mais em vigor (somente porque não conseguem vê-la sendo aplicada), frequentemente fazem proibições aos membros e à igreja usando a própria Lei! Ora, isto é um disparate profundo! Ou a Lei é válida, dentro do correto entendimento, ou não é!

Bem, exposto o que me deixa intrigado (mas sei que não somente a mim), destrinchemos a questão.

O Antigo Testamento trabalha com formas visíveis que expressam realidades invisíveis. Por exemplo, o tabernáculo e o templo eram Cristo prefigurado, a saber, apontavam para o Cristo que viria (Mt 26.61); as leis de separação de animais, sementes e tipos de tecidos (Lv 19.19), ensinavam ao povo que eles deveriam ser separados ao Senhor (Lv 26.12); o ano do jubileu, tempo em que se restituía a terra àqueles que a haviam vendido para pagar dívidas (Lv 25.13), era uma demonstração do perdão dado por Cristo e do amor que une os irmãos (Jo 13.35). Assim, seguindo esta mesma sequência, temos as referências ao não comer sangue.

O primeiro fato que devemos notar é o sangue não ser o mal em si mesmo. O sangue não poderia ser a malignidade por si só, pois se assim fosse, os sacerdotes não seriam instados a aspergir sangue no templo (Lv 7.14) de Deus. Se a substância "sangue" fosse pecaminosa, de modo algum o Senhor a requereria de Seu povo.

O segundo fato é o sangue ser uma figura que indica vida: "Somente esforça-te para que não comas o sangue; pois o sangue é vida; pelo que não comerás a vida com a carne" (Dt 12.23 - grifo meu). Notemos que é uma "figura", algo que remete à vida. Bem sabemos que a vida não está somente no sangue. Uma gota de sangue na estrada não indica que há um ser humano, literal e completo, na partícula. Nosso corpo é formado de muitas "juntas e medulas" (Hb 4.12), "De pele e carne" (Jó 10.11a), "de ossos e nervos" (Jó 10.11b)...

O terceiro fato diz respeito à necessidade, assim como nas leis de separação de sementes e demais coisas, do povo ser instruído a valorizar o sacrifício. Lembremos que o povo de Israel convivia constantemente oferecendo holocaustos (ofertas totalmente queimadas), os sacerdotes degolavam animais (Lv 4.15) e criaturas eram frequentemente oferecidas em sacrifícios ao Senhor.

Assim, Deus havia proibido o comer/beber do sangue, não por uma propriedade intrinsecamente má no sangue, mas, sim, por causa da necessidade do povo aprender a não confundir e se perder na leviandade.

Este fato pode ser provado com os elementos da ceia sob a luz do Novo Testamento (leia 1 Coríntios 11). Nenhum cristão, durante a ceia, crê que os elementos sejam literalmente o sangue de Cristo [1], mas nem por isso é displicente com eles - não se põe a ficar "fazendo bolinha" com o pão ou erguendo o cálice para admirar a textura do vinho contra a luz. Por que assim não se procede? Porque o momento é diferente; mesmo que os elementos sejam os mesmos usados nas casas, para os jantares e confraternizações, naquele momento eles representam algo mais importante. Cuida-se para não banalizar o significado, não o elemento.

Desta forma, quando lemos na Escritura que não dever-se-ia comer sangue, o propósito era ensinar os judeus sobre a necessidade de serem santos (que significa ser separado) ao Senhor, não ingerindo o líquido que o Senhor requeria para apontar o perdão dos pecados em Cristo Jesus (Hb 10).

Portanto, hoje, nós cristãos do Novo Testamento, podemos livremente comer qualquer coisa com sangue (uma carne "mal passada" ou galinha ao molho pardo, por exemplo), pois não mais vivemos nas sombras do que os elementos tipificavam, e sim na luz, às asas do Altíssimo. O sangue, sim, para sempre continuará a significar "vida" (tanto que somos instados a somente o utilizar na ceia, a fim de seguirmos o padrão bíblico), mas não mais como motivo de separação. Pelo sangue de Cristo estamos unidos a Ele, de modo que o sangue, o líquido, não deve ser proibido aos cristãos.

O que dizer, por fim, do versículo, "Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da prostituição, das quais coisas bem fazeis se vos guardardes" (At 15.29; 21.15)? Para entendermos, é preciso analisar o porquê da recomendação apostólica.

No início do capítulo 15 é relatado que, "alguns que tinham descido da Judéia ensinavam assim os irmãos: Se não vos circuncidardes conforme o uso de Moisés, não podeis salvar-vos" (At 15.1). Aqueles cristãos advindos do judaísmo não se conformavam com o fato de não haver mais necessidade de circuncisão física, pois agora ela se dava no coração (Rm 2.29). Havendo, então, esta dificuldade para conciliar a vida de judeus convertidos com gentios convertidos, "Congregaram-se, pois, os apóstolos e os anciãos para considerar este assunto" (At 15.16).

Tal assunto não foi facilmente resolvido, de modo que lemos haver ocorrido "grande contenda" (At 15.7) até mesmo entre os apóstolos e anciãos (demais presbíteros reunidos). Pedro se levanta em meio à assembleia e relembra aos irmãos, "que já há muito tempo Deus me elegeu dentre nós, para que os gentios ouvissem da minha boca a palavra do evangelho, e cressem... dando-lhes o Espírito Santo, assim como também a nós; E não fez diferença alguma entre eles e nós, purificando os seus corações pela fé. Agora, pois, por que tentais a Deus, pondo sobre a cerviz dos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar?" (At 15.7-10). A razão para isso era a referência à Lei, que nos dizeres do escritor de Hebreus: "(Pois a lei nenhuma coisa aperfeiçoou)" (Hb 7.19). Os judaizantes estavam tentando persuadir aos convertidos de que a observância da Lei, por si mesma, seria a causa da salvação - e nisto estavam errados.

Com isso em mente e a discussão em pauta, "tomou Tiago a palavra, dizendo: Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios, para tomar deles um povo para o seu nome... Por isso julgo que não se deve perturbar aqueles, dentre os gentios, que se convertem a Deus. Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue" (At 15.13-14, 19-20).

Qual é, pois, a solução para nosso problema? Muito simples. Uma vez que a Igreja de Deus florescia com judeus e gentios vivendo conjuntamente, era necessário estabelecer um padrão, de modo que os judeus não se escandalizassem pela não prática de certos ritos da Lei que haviam cessado em Cristo e, também, de maneira a não levar os gentios (todos os outros povos que não eram judeus) a viverem licenciosamente, como se nada devessem observar.

Este mesmo princípio, a saber, o de não ser escândalo para o próximo, foi aventado pelo apóstolo: "Por isso, se a comida escandalizar a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que meu irmão não se escandalize" (1Co 8.13). Ora, uma vez que a Bíblia não pode se contradizer e notro lugar lemos, "Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, Que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo" (Cl 2.16-17), o entendimento só pode ser um: que o motivo pelo qual os crentes do início do Novo Testamento deveriam se abster de sangue e carne sufocada, não era pela natureza em si dos elementos ou pela forma como ela era obtida, e sim para evitar o escândalo e promover a unidade. Tal qual Paulo estava disposto a nunca mais comer carne (sacrificada a ídolos [veja os versículos anteriores de 1Co 8.13)], caso isto trouxesse consequências na vida dos irmãos mais fracos na fé, bem faremos se de igual modo procedermos.

Que este breve estudo, pela graça e misericórdia de Cristo, o salvador de todos os Filhos de Deus, no qual as cerimônias sangrentas (assim chamadas devido ao sangue) e todas as outras que envolviam prefigurações, foram encerradas e definitivamente substituídas pelo novo Adão, possa, longe de nos levar à devassidão, acima de tudo, nos instar a amar a Deus e ao próximo nos laços fraternais de Jesus.

Louvemos ao Senhor pelo precioso Sangue de Cristo e não temamos o comer e o beber.

"Portanto, quer comais quer bebais, ou façais outra qualquer coisa, fazei tudo para glória de Deus" (1Co 10.31). 

Nota:
[1] Esta heresia se chama transubstanciação (católica romana) ou numa hipótese tão ruim quanto, a consubstanciação (luterana). 
Fonte: 2timoteo316.blogspot.com/2013/05/os-cristaos-podem-comer-alimento-com.html+&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br&client=firefox-a

quinta-feira, 6 de março de 2014

Tá tudo errado!


Alma humana, um dos maiores empreendimentos da engenharia divina, ao observar a realidade que aqui se encontra estabelecida, percebe que existe algo de errado com as coisas que a rodeia e em sua própria constituição. Isto é possível, acredito, porque no mais profundo da alma humana existe uma espécie de conhecimento inato, algo como uma radiação cósmica de fundo com origem no próprio Deus, que traz à superfície da existência humana a certeza de que a ordem estabelecida no planeta diverge em grande medida do projeto original.
O sábio Salomão chamou essa capacidade humana de transcender a sua realidade de eternidade[1]. Ela foi depositada pelo próprio Deus no coração humano e o inquieta diante da realidade. Essa inquietação, fruto da percepção de que as coisas no mundo andam fora de lugar, está espalhada em inúmeras manifestações humanas. Na literatura, nos noticiários, nas peças teatrais, na pintura e até mesmo na guerra temos alguns dos receptáculos daquilo que tem incomodado o ser humano em sua jornada pelo caos mundano.
Nesse quadro de inquietações pintado pelo homem diante de sua própria existência, a música parece encontrar um lugar especial. É, talvez, o veículo de maior expressão e análise para diagnosticarmos aquilo que incomoda a alma social do mundo, pois, como bem observou Jesus, “a boca fala do que está cheio o coração”[2]. O próprio Deus, o Pai, também parece reconhecer essa realidade, visto que Ele, por meio do Espírito Santo, preservou nas Escrituras Sagradas do Antigo Testamento uma expressiva quantidade de músicas do povo judeu[3]; canções que, a semelhança daquelas que ouvimos em nossos dias, nos permite observar o coração humano.  
Como temos demonstrado, o coração humano de nossos dias é profundamente inquieto ante o caos interno e externo que se manifesta diante de seus olhos. É bem verdade que o ritmo acelerado com que tem pulsado alguns corações na pós-modernidade parece “demonstrar” certo ar de tranquilidade. Isso, todavia, muda drasticamente à medida que o ritmo da vida diminui e todos percebem que o viver não se limita a correria; o que o sábio descreveu como correr atrás do vento.      
E é quando esse ritmo diminui e o homem percebe que passou boa parte de sua vida correndo atrás do vento que ele abre a sua boca e declara: “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”[4]. Esse mundo doente, contudo, como percebemos pelo próprio desenvolvimento dessa canção entoado pelo falecido Renato Russo, é produto humano. Dessa forma, talvez até sem se da conta, nessa canção temos o reconhecimento de que o dano sofrido pela humanidade não é nada mais do que o efeito colateral de suas próprias ações. A Bíblia chama isso de pecado.  
Podemos perceber algo semelhante numa música de Sílvio Brito, bastante conhecida na voz de Raul Seixas; uma das maiores lendas do bom e velho rock nacional. A canção, em tom de desespero, inicia com as seguintes palavras: “Pare o mundo  Que eu quero descer”[5]. O motivo para essa fuga do planeta, segundo o Maluco Beleza, é o seguinte: “Tá tudo errado. Tá tudo errado”[6]. Pois, “Desorientado segue o mundo”[7] e ele, logicamente, como um cara espero, não pode ficar parado[8].
O que há de tão errado no mundo, para que o legendário Raulzito, apossando-se das ideias do Sílvio Brito, tenha desejado sair desse mundo às pressas? Ou, para usar a linguagem do profeta Jeremias: “Por que, pois, se queixa o homem vivente?”[9] A leitura de Raul é a seguinte: o mundo é um lugar de conflitos raciais que no fundo não passa de briga entre irmãos; de intensa burocracia que dificulta a vida das pessoas simples, de múltiplos e frequentes mecanismos de exploração, de acelerado processo de destruição da natureza, de sonhos não realizados, de sofrimento ininterrupto, de insensibilidade para com aqueles que sofrem, de pessoas que andam sem rumo e tantos outros males.
Esse quadro caótico pintado na canção entoado por Raul Seixas, a semelhança do mundo doente descrito na canção de Renato Russo, é também uma construção humana. Isto é, o mundo descrito por Raul como um mundo todo errado é, podemos assim dizer, obra de nossas mãos. De que, então, se queixa o velho Raul? Jeremias, alguém também familiarizado com a poesia, certamente lhe diria: Queixe-se Raul de seus próprios pecados[10].
Isso equivale a dizer que aquilo que chamamos de homem pós-moderno não é muito diferente do primeiro homem pecador, Adão: alguém que consegue até vê o erro, o pecado, a desordem, que está tudo errado, mas, ao mesmo tempo, é tão cego que não reconhece todas essas coisas como obras de suas mãos e, por isso, procura, de alguma forma, fugir do problema. Esse, segundo a literatura bíblica, é um dos principais efeitos do pecado na humanidade.
Percebemos, portanto, que “tá tudo errado” com o mundo, porque “tá tudo errado” com o homem. Essa deveria ser a percepção humana. Essa transposição epistemológica, certamente, faria a musicalidade humana trilhar novos caminhos, enxergar novos horizontes, limpar as janelas de sua alma, desembaçar as lentes de seus óculos e tecer novos versos; uma canção de arrependimento, mas ao mesmo tempo de libertação:   
    
Oh ! tão cego eu andei, e perdido vaguei,
Longe, longe do meu Salvador.
Mas da glória desceu e seu sangue verteu 
Prá salvar um tão pobre pecador”[11]
________________
[1] Eclesiastes 3:11.
[2] Mateus 12:34.
[3] O livro dos Salmos é pode ser definido como uma coleção de canções;
[4]Índios, composição de Renato Russo. Disponível em <http://www.vagalume.com.br/legiao-urbana/indios.html>. Acesso em 06 Mar 2014.
[5]Pare o mundo que eu quero descer, composição de Sergio Brito. 
[6] Idem
[7] Idem
[8] Idem
[9] Lamentações 3:39ª.
[10] Lamentações 3:39b.
[11] Hino 396 do Cantor Cristão.

Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Por que ninguém falava bem de Diótrefes?


A terceira carta de João é uma daqueles trechos da Escritura Sagrada que raramente lemos em nossas igrejas. Para falar a verdade, embora não venhamos a gastar mais do que dez minutos para fazer a leitura dessa carta, estou convencido de que nem mesmo em nossos lares esse pequeno texto tem sido contemplado em nossas leituras. A despeito de nosso desprezo para com essa carta de João, esse é um texto extremamente interessante e atual. Ele nos fornece um retrato da igreja primitiva que muito se assemelha ao retrato da igreja cristã na atualidade em muitos aspectos.

O texto nos fala primeiramente de um homem chamado Gaio; muito provavelmente um dos líderes dessa igreja. Esse homem, como se pode depreender da leitura da carta de João, acolhia e encaminhava os mestres e missionários itinerantes que viajam de cidade em cidade ajudando a estabelecer novas congregações [1].

Este trabalho desenvolvido por Gaio de acolher e encaminhar os missionários que saiam pelo mundo, sem sustento determinado, para implantar novos trabalhos, nos primeiros anos do Cristianismo, ganhou notoriedade e chegou até os ouvidos do apóstolo João [2]. Com base neste bom testemunho que os missionários traziam a respeito de Gaio, João, cheio de alegria, dirige uma carta a Gaio, a quem chama de seu filho, a fim de encorajá-lo em seu ministério de apoio amoroso para com aqueles que decidiram servir a Deus especificamente no estabelecimento de novas comunidades. Pois, fazendo isso, diz o apóstolo João, o seu amado filho estaria não só caminhado na verdade, mas também se tornando um cooperador na promoção da mesma [3]

É interessante, entretanto, observarmos que Gaio não era o único líder dessa igreja para qual o apóstolo João endereçou a sua terceira carta. É também provável que ele não fosse o líder mais “influente” nessa comunidade cristã do primeiro século. Essas são questões que podemos extrair da própria carta de João com relativa facilidade.

Esse outro líder de maior “influência” do que o próprio Gaio chama-se Diótrefes [4]. Pelo desenvolvimento da carta joanina, somos levados a inferir que Diótrefes era alguém de personalidade forte, muito inteligente e capaz de exercer forte liderança sobre a vida da igreja. Um líder, portanto, para muitos, acima de qualquer questionamento. Contudo, a despeito de suas qualidades pessoais e da função que ocupava na igreja, a fama de Diótrefes não era boa. Ninguém falava bem dele. Diferente de Gaio, ele não tinha um bom testemunho.

Por que ninguém falava bem de Diótrefes? Por que, diferente de Gaio, o seu testemunho era péssimo? O apóstolo João nos leva a entender as inúmeras razões do péssimo testemunho deste líder da igreja primitiva através desse trecho de sua carta:
         
Escrevi alguma coisa à igreja; mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, se eu for aí, far-lhe-ei lembradas as obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras maliciosas. E, não satisfeito com estas coisas, nem ele mesmo acolhe os irmãos, como impede os que querem recebê-los e os expulsa da igreja” [5].    

Primeiro, Diótrefes era alguém que não se sujeitava a autoridade apostólica. Percebemos isso, quando o apóstolo João declara para Gaio que havia escrito alguma coisa para a igreja. Nesta carta, talvez, João tivesse tratado da necessidade desta igreja acolher e enviar os missionários itinerantes. Contudo, como observa o próprio João, Diótrefes não havia dado a mínima atenção para as suas palavras. Sendo essa, portanto, uma atitude de completo desrespeito para com o apóstolo.    
           
Segundo, Diótrefes era alguém que gostava de exercer a primazia entre os irmãos da igreja. Noutras palavras: Diótrefes tinha sede pelo poder. O seu ideal era manter-se sempre no primeiro lugar. A igreja não era, portanto, o lugar onde ele desenvolveria o seu ministério, o serviço ao Senhor e aos seus irmãos, mas o lugar onde encontraria aqueles que o servissem.
            
Essa característica de Diótrefes torna-se ainda mais evidente em três de suas atitudes destacadas pelo apóstolo João: Ele não acolhia os irmãos (uma referência aos mestres e missionários itinerantes), impedia aqueles que desejam recebê-los e, por fim, os expulsava da igreja. É bem provável que Diótrefes tenha apresentado boas justificativas para as atitudes que estava tomando. Talvez tenha dito para a sua igreja que suas ações tinham em vista manter a igreja pura de influências negativas. Não podemos negar que, não poucas vezes, os pastores devem agir para proteger suas igrejas da influência de lobos devoradores e o próprio apóstolo João parece reconhecer essa realidade em sua segunda carta [6]. Esse, contudo, não era o caso de Diótefres. O que ele intentava realmente era manter a igreja sob o seu domínio; torná-la sua propriedade particular e isso estava sendo ameaçado pelo fluxo de líderes em sua igreja.

Terceiro, Diótrefes era um líder caluniador. Ele, literalmente, espalhava mentiras sobre o apóstolo João e os seus colaboradores. A Nova Tradução da Linguagem de Hoje, procurando nos aproximar do sentido do texto grego, nos diz que Diótrefes não apenas pronunciava mentiras contra João e os seus, mas que as suas mentiras eram horríveis.
            
Qual o objetivo de Diótrefes com essas mentiras? Essa, sem dúvida, era uma estratégia para desacreditar o apóstolo João e os mestres e missionários itinerantes que colaboram com o seu ministério de implantação de novas congregações e assim se perpetuar no poder.
            
Por essas razões ninguém falava bem de Diótrefes e o apóstolo João orientava a Gaio para que não o tomasse exemplo. Isso porque, acrescenta João, apesar de Diótrefes está na liderança de uma igreja, ele não possuía as marcas de um verdadeiro cristão, ou seja, a prática do bem [7].
            
Essa pequena carta de João traz importantes lições, como dito, para a igreja em nossos dias:
            
Primeira, não precisamos nos deslocar para um lugar distante, deixar nossos familiares, abandonar nossos empregos, passar dificuldades extremas para se envolver com a atividade missionária. O exemplo de Gaio nos mostra justamente isso. Ou seja, sem deixar os nossos lares e igrejas podemos nos envolver intensamente com a missão. Gaio fazia isso, por exemplo, acolhendo e encaminhado missionários.  
            
Segunda, atividade missionária não é um programa da igreja ou um culto em algum domingo do mês. João nessa pequena carta, especificamente no elogio e incentivo que traz a Gaio, nos leva a entender que fazer missões é estar envolvido com a promoção da verdade. Isso, sem dúvida algum, é algo que precisamos observar.   
            
Terceira, a igreja, muitas vezes, sofre nas mãos de uma liderança anticristã. São homens inteligentes, carismáticos e com boa capacidade para dirigir a igreja. Líderes, para a grande maioria, acima de quaisquer suspeita. Todavia, como Diótrefes, são homens com sede pelo poder e nessa busca insaciável pelo poder revelam o seu verdadeiro caráter, ou seja, esses homens se mostram insubmissos, dominadores, arrogantes, presunçosos, mentirosos e inconsequentes.     
            
Observando esse tipo de liderança, retratada por meio de Diótrefes em sua carta, João nos declara que essa espécie de líder não é crente; não conhece a Deus; é um ímpio tentado fazer da igreja sua propriedade particular. O seu conselho para aqueles que sofrem com esse tipo de liderança, como Gaio, é o seguinte: “não imiteis o que é mau” [8].
           
A palavra aqui traduzida por imitar também poderia ser traduzida por mímica, o que aponta para a ideia de acompanhar os movimentos de outra pessoa. A forma como João coloca essa palavra em sua carta nos leva a entender que se Gaio decidisse seguir os passos de Diótrefes, deveria esta ciente de que estaria fazendo algo que não traria nenhum benefício para a sua vida. Infelizmente, muitas igrejas ainda não conseguiram entender essa verdade aqui ensinada pelo apóstolo João, pois continuam a seguir os passos de líderes que não trazem quaisquer benefícios para as suas vidas, isso porque são líderes que não possuem a nova vida em Cristo Jesus.  
            
Quarta, a carta de João, quando retrata o estilo de vida de Gaio e Diótrefes, nos ensina que o modo como tratamos as pessoas e as coisas sobre nossa responsabilidade revelam o nosso caráter. Gaio, como coloca João, era alguém que não só caminhava na verdade, mas também havia se tornado um promotor da mesma [9]. A vida de Gaio não era uma vida de discurso vazio, mas, acima de tudo, uma vida de prática da verdade. Diferente de Gaio, Diótrefes, embora no cargo de maior importância da igreja, era alguém apegado ao poder, mas desapegado da verdade [10]. Por meio desses frutos, Diótrefes revelava a sua verdadeira natureza; um homem que não conhecia a Deus [11].
            
Fazer essa distinção entre os bons líderes e aqueles de conduta duvidosa, como coloca o apóstolo João em sua carta, é algo que o próprio Jesus havia ensinado aos seus discípulos quando, numa referência aos falsos profetas, falava sobre a árvore má e a sua incapacidade de produzir frutos bons [12]. A igreja em nossos dias, como no tempo de Gaio, precisa urgentemente aprender a fazer essa distinção, pois, como naqueles dias, existem muitos Diótrefes hoje.              
            
Por fim, o apóstolo João nos leva a inferir em sua carta que aquilo de ruim que muitas vezes ouvimos falar sobre determinada igreja possui fundamento. Isso quer dizer que a própria igreja, de alguma forma, tem contribuí para a manutenção de um péssimo testemunho ao seu respeito. Muitas vezes faz isso por meio de seus líderes mais influentes, como no caso de Diótrefes que tentava fazer da igreja sua propriedade particular, outras vezes, por meio de seus próprios integrantes que também não andam de acordo com a verdade.
            
Todavia, se é certo que uma igreja pode contribuir para destruição de sua imagem por meio das ações de seus líderes e membros, também é verdade que uma igreja pode trabalhar no sentido oposto. Esse era o caso de Gaio; homem que andava na verdade e estava também comprometido com a promoção da mesma. Por isso, diferente de Diótrefes, as pessoas falavam bem dele. Por isso também o apóstolo João o elogiou e o incentivou a permanecer em sua caminhada.
            
Não Diótrefes, que se conduzia de maneira anticristã e por isso não possuía um bom testemunho, mas Gaio, um homem que andava na verdade, deve ser o paradigma para a igreja em nossos dias. Assim construiremos um testemunho melhor para a igreja e alcançaremos a graça do povo ao mostra ao mundo a luz de Deus o nosso Pai [13].             

____________
[1] 3 João 6-8.
[2] Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal, p. 1793.
[3] 3 João 4, 8.
[4] 3 João 9.
[5] 3 João 9-10.
[6] A segunda carta de João orienta como a igreja deveria agir com os falsos mestres itinerantes do I século. 
[7] 3 João 11.
[8] 3 João 11.
[9] 3 João 4, 8.
[10] 3 João 9, 10.
[11] 3 João 11.
[12] Mateus 7.15-20.
[13] Mateus 5.16.


Autor: Hebert Leonardo Borges de Souza, ministro batista, bacharel em teologia pelo Seminário Teológico Batista Nacional de Pernambuco e licenciado em física pela Universidade Federal Rural de Pernambuco
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